Logo Charme-se
O que toda mulher precisa saber sobre a endometriose

Quantas vezes você já ouviu que “cólica é assim mesmo”? Que “toda mulher sofre” ou que “depois que tiver filho melhora”? Durante gerações, a dor menstrual foi tratada como parte inevitável de ser mulher. Afinal, essa crença silenciosa fez com que milhões de mulheres convivessem com um sofrimento que, em muitos casos, tem nome, causa e tratamento.

Esse nome é endometriose.

O que é a endometriose?

A endometriose é uma doença inflamatória crônica em que um tecido parecido com o revestimento interno do útero, o endométrio, passa a se desenvolver em lugares onde não deveria. Ele pode se instalar nos ovários, nas tubas uterinas, no peritônio (a membrana que reveste a cavidade abdominal), no intestino, na bexiga e, em situações mais raras, até fora da região pélvica.

O problema é que esse tecido continua respondendo aos hormônios do ciclo menstrual, como se estivesse dentro do útero. A cada mês ele reage, inflama e pode sangrar. Só que, diferentemente da menstruação, esse sangue não tem por onde sair. O resultado é um processo inflamatório constante, que gera dor, formação de cistos e aderências, e que pode “grudar” órgãos que deveriam se mover livremente.

Por isso, a endometriose vai muito além de uma cólica forte. É uma condição que pode afetar o corpo todo, a rotina, o trabalho, os relacionamentos e a saúde emocional.

Uma doença muito mais comum do que parece

Para se ter uma ideia da dimensão do problema, estima-se que mais de 190 milhões de mulheres vivam com a doença ao redor do planeta. É uma das condições ginecológicas mais frequentes em mulheres em idade reprodutiva, e ainda assim continua sendo uma das mais negligenciadas.

No Brasil, a situação é igualmente preocupante. Uma das maiores queixas de especialistas é justamente o tempo que se leva até chegar a um diagnóstico correto. Estimativas apontam que esse intervalo pode chegar a vários anos entre o surgimento dos primeiros sintomas e a confirmação da doença. Pois muitas vezes, são anos de sofrimento, de idas e vindas a consultórios e de analgésicos tomados no escuro antes de qualquer resposta.

Nesse meio-tempo, a vida segue com faltas ao trabalho, aulas perdidas, programas cancelados e uma sensação incômoda de que ninguém leva a sua dor a sério.

O que toda mulher precisa saber sobre a endometriose
Foto de Polina Zimmerman Pexels

A dor não mede a gravidade da doença

Um dos pontos que mais confundem pacientes (e, às vezes, até profissionais de saúde) é a relação entre dor e extensão da doença. Muita gente imagina que, quanto maior a dor, mais grave é a endometriose. Na prática, não é bem assim.

“Pequenas lesões podem causar dores incapacitantes dependendo da localização, enquanto lesões mais extensas podem, em casos raros, ser completamente assintomáticas.”
— Dra. Nataly Campos, ginecologista e docente do curso de Medicina da Afya Centro Universitário de Pato Branco

Por isso, não se deve usar a dor como base para o diagnóstico. Isso significa que, mesmo sem sintomas devastadores, uma mulher pode estar com a endometriose avançada. Mas outra pode ter lesões pequenas e, ainda assim, mal conseguir levantar da cama durante o período menstrual.

Em outras palavras, a intensidade do que você sente é real e merece investigação, mas a ausência de dor intensa também não garante que está tudo bem. É exatamente esse “mistério” que torna o acompanhamento com um especialista tão importante.

Por que o diagnóstico da endometriose pode demorar?

Existem vários motivos para essa demora, e a maioria deles tem raiz cultural.

1. A normalização da dor. Durante muito tempo, a dor foi normalizada até pela sociedade médica. Por isso, muitas mulheres ainda demoram para buscar ajuda especializada. Elas cresceram ouvindo que sofrer na menstruação faz parte, e acabam se acostumando.

2. Sintomas que se confundem com outras condições. Dor abdominal, alterações intestinais, cansaço e incômodo urinário podem ser atribuídos a problemas como síndrome do intestino irritável, infecções urinárias de repetição ou até estresse. Assim, a mulher passa por diferentes especialistas sem que ninguém ligue os pontos.

3. Exames que exigem olhar treinado. Em muitos casos, a investigação depende de exames de imagem específicos, como a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética da pelve, realizados por profissionais com experiência em endometriose. Um exame de rotina, feito sem esse direcionamento, pode não mostrar as lesões.

4. A falta de informação. Muitas mulheres simplesmente nunca ouviram falar da doença até que ela atinja um ponto crítico, seja por uma dor insuportável, seja pela dificuldade de engravidar.

Segundo a Dra. Nataly Campos, quando a endometriose finalmente é identificada, em vários casos já se encontra em estágio avançado. E aqui mora um dos maiores riscos: quanto mais tarde o diagnóstico chega, menores podem ser as chances de uma gestação espontânea.

O que toda mulher precisa saber sobre a endometriose
Foto de ROMAN ODINTSOV Pexels

Fique atenta: sinais que merecem atenção

Nem todo desconforto é motivo de alarme, mas alguns sinais pedem uma conversa franca com o ginecologista. Fique de olho se você percebe:

  • Dor durante a relação sexual
  • Cólicas fora do período menstrual
  • Dor nas pernas, especialmente à esquerda
  • Alterações intestinais ou urinárias no ciclo
  • Fadiga crônica e sem explicação aparente
  • Dor pélvica persistente

Perceba que muitos desses sintomas não aparecem apenas na menstruação. Alguns surgem em outros momentos do ciclo e acabam sendo ignorados justamente por isso. A dor na relação sexual, por exemplo, é um sintoma muito comum e, ao mesmo tempo, pouquíssimo comentado, seja por vergonha, seja pela crença de que “é normal”.

Se você se identificou com um ou mais desses sinais, não espere piorar. Anote o que sente, quando sente e com que intensidade. Esse registro ajuda muito o médico a entender o seu quadro.

E a fertilidade, como fica?

Esse talvez seja o impacto mais doloroso da doença para muitas mulheres. A endometriose pode provocar inflamações, aderências e alterações nos órgãos reprodutivos. Portanto, consequentemente dificultam a fecundação. As tubas podem ficar comprometidas, os ovários podem sofrer com cistos e a qualidade do ambiente pélvico fica prejudicada.

Estima-se que entre 30% e 50% das pacientes enfrentam algum grau de infertilidade. Essa estatística ressalta, mais uma vez, a importância do diagnóstico precoce.

Mas é fundamental dizer: ter endometriose não significa que você não vai conseguir engravidar. Muitas mulheres com a doença têm gestações espontâneas, e outras chegam lá com o auxílio de tratamentos. Mesmo diante desta realidade, nada está perdido. Pois o acompanhamento médico adequado pode fazer uma grande diferença na qualidade de vida e também aumenta a possibilidade de engravidar.

O que muda o jogo é o tempo. Quanto antes a doença é identificada e manejada, mais opções a mulher tem ao longo do caminho.

Quais são as opções de tratamento?

Não existe um tratamento único para todas as mulheres. A escolha depende da intensidade dos sintomas, da localização das lesões, da idade e, principalmente, do desejo de engravidar naquele momento da vida.

Tratamento clínico

De acordo com a especialista, tudo começa pelo controle clínico. Nessa primeira etapa, geralmente são indicadas terapias hormonais, como anticoncepcionais orais, DIU hormonal ou outros medicamentos. O objetivo é reduzir a inflamação e suspender o ciclo menstrual temporariamente, o que diminui a atividade do tecido fora do útero e alivia a dor.

Além dos hormônios, o médico pode orientar o uso de medicamentos para controle da dor e indicar abordagens complementares, como fisioterapia pélvica, atividade física e acompanhamento nutricional e psicológico. A endometriose pesa no corpo, mas também na mente, e cuidar das duas frentes faz diferença.

Cirurgia

Porém, quando os casos envolvem dores mais severas ou comprometimento de órgãos como intestino e bexiga, a cirurgia entra em cena. Nessas situações, o procedimento preferido é a laparoscopia minimamente invasiva. Pois ela permite remover as lesões e restaurar a anatomia pélvica, com cortes pequenos e recuperação geralmente mais rápida do que nas cirurgias abertas.

Reprodução assistida

Para mulheres que desejam gestar e enfrentam infertilidade, técnicas como a fertilização in vitro tornam-se aliadas estratégicas. Mas especialmente após a “otimização do ambiente pélvico”, como explica a Dra. Nataly Campos. Ou seja, o tratamento da doença e a reprodução assistida podem caminhar juntos, cada um no seu momento certo.

Portanto, existe desde o tratamento clínico até a reprodução assistida. Algumas opções podem aumentar significativamente as possibilidades de uma gestação bem-sucedida.

Foto de ROMAN ODINTSOV Pexels

Como buscar ajuda sem se sentir “exagerada”

Muitas mulheres hesitam em procurar um médico por medo de ouvir que estão “dramatizando”. Se isso já aconteceu com você, saiba que a sua percepção importa. Algumas atitudes podem ajudar na consulta:

  • Leve um histórico. Anote a duração e a intensidade das cólicas, o dia do ciclo em que cada sintoma aparece e como eles afetam sua rotina.
  • Fale sobre tudo. Dor na relação, alterações no intestino e na urina, cansaço e dificuldade para engravidar são informações valiosas.
  • Procure um especialista. Se possível, busque um ginecologista com experiência em endometriose.
  • Não desista na primeira resposta. Se você sente que seu sofrimento foi minimizado, uma segunda opinião é um direito seu.

Parar de normalizar a dor é o primeiro passo

A endometriose é uma doença real, frequente e, ao mesmo tempo, ainda cercada de silêncio. Cada mulher que reconhece os sinais e decide investigar abre caminho não só para o próprio bem-estar, mas também para que outras deixem de sofrer calada.

Então, como bem lembra a Dra. Nataly, identificar os sintomas precocemente pode ser a diferença entre realizar, ou não, o sonho de ser mãe. E isso começa com uma coisa simples: parar de normalizar a dor.

Se algo no seu corpo está pedindo atenção, escute. Você merece respostas, acolhimento e cuidado.


Alguns links indicados neste artigo podem ser afiliados. A CHARME-SE atua como revista digital e não realiza vendas. Todo o processo de compra, pagamento e entrega é de responsabilidade do lojista. Ao comprar por meio desses links, você contribui para que continuemos produzindo conteúdos de beleza, moda e autocuidado — sem custo adicional para você.

aproveite e veja também

Comentários

Declaro que li e concordo com a política de privacidade.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.