Corte curtinho, castanho profundo, fios naturais com frizz e até perfume para o cabelo: as tendências capilares do momento prometem renovar o visual, e muita gente quer experimentar tudo ao mesmo tempo. O problema, segundo os especialistas ouvidos nesta matéria, raramente está na novidade em si. Ele aparece na forma como ela entra na rotina: com produtos demais, mudanças químicas frequentes e expectativas pouco realistas sobre o crescimento dos fios.
Antes de aderir a qualquer uma das tendências capilares abaixo, vale entender o que cada uma exige de você e do seu cabelo.
1. Skincare coreano para o cabelo: mais etapas não significam mais saúde

Séruns, essências, ampolas e tratamentos para o couro cabeludo transformaram o cuidado com os fios em um ritual parecido com o do rosto. A pergunta é inevitável: todo cabelo precisa de tantas etapas?
Para a dermatologista e tricologista Dra. Tatyana Braga (RQE 39552), especializada em Cosmiatria pelo Hospital Albert Einstein, o ponto forte da cosmetologia coreana é a prevenção e o respeito à barreira cutânea. Mas ela alerta que copiar uma rotina viral não funciona. “O cuidado precisa ser individualizado”, afirma. No Brasil, lembra a médica, é preciso considerar clima, oleosidade, características do couro cabeludo e os hábitos de cada pessoa.
2. Pixie e bixie: cortar é fácil, recuperar o comprimento leva tempo
O pixie, mais curto, e o bixie, que mistura o bob com o pixie, estão em alta. A mudança pode ser libertadora, mas quem tem cabelo longo deve lembrar que, em média, os fios crescem cerca de um centímetro por mês, ritmo que varia de pessoa para pessoa.
A Dra. Amanda Caroline Costa Leitão (CRM-SP 190.505), médica com atuação em transplante capilar, desfaz uma crença comum: nenhum produto ou tratamento acelera esse processo de forma extraordinária, porque o crescimento segue um ciclo biológico. Se algo compromete o crescimento, a causa precisa ser investigada. Quando o cabelo está saudável, a receita é paciência e cuidado com os fios durante a espera.
3. Máscaras de proteína: reconstruir demais também é um risco

Queratina, aminoácidos e proteínas ganharam espaço nas rotinas de tratamento, principalmente entre quem faz coloração, descoloração ou usa ferramentas de calor com frequência. Só que nem toda fibra precisa de reconstrução constante. Dependendo da fórmula e da frequência, o excesso pode deixar os fios rígidos, com pouca maleabilidade e mais sujeitos à quebra.
A dermatologista e tricologista Dra. Angélica Pimenta explica que cada cabelo tem necessidades próprias, de acordo com seu histórico químico. Para ela, acrescentar um produto ou intensificar um tratamento nem sempre melhora a qualidade dos fios. O caminho é avaliar a fibra e montar uma rotina que respeite o que aquele cabelo realmente precisa.
4. Espresso Brunet: escurecer o cabelo não é sempre inofensivo
Os castanhos profundos e brilhantes, inspirados no café espresso, aparecem entre as tendências capilares de coloração mais desejadas. Geralmente exigem menos agressão química do que clareamentos intensos, mas isso não significa que o procedimento seja livre de riscos. Histórico de tratamentos, resistência da fibra e condição atual dos fios continuam pesando.
A cabeleireira e terapeuta capilar Odila Martins, com mais de 20 anos de experiência, resume o princípio: antes de definir uma nova coloração ou descoloração, é preciso avaliar o histórico químico e entender “o que aquele cabelo realmente suporta”. O objetivo, diz ela, é um resultado bonito sem comprometer a saúde dos fios.
5. Frizz natural: da passarela para o dia a dia

Depois de temporadas dominadas por cabelos milimetricamente alinhados, o frizz voltou a ser visto como parte de uma estética mais natural, inclusive em referências de moda como a Prada. A tendência ajuda a questionar a ideia de que todo fio arrepiado precisa ser eliminado, já que o frizz pode fazer parte da textura natural do cabelo.
O sinal de alerta aparece quando ele vem acompanhado de ressecamento intenso, quebra ou aspereza. Segundo a Dra. Karla Fonseca, médica especialista em medicina capilar, nem toda característica estética pede tratamento. Quando há quebra excessiva, perda de resistência ou alterações persistentes, o correto é investigar o que está acontecendo antes de escolher qualquer procedimento.
6. Perfume para cabelo: cheirinho bom não substitui a higiene
Os perfumes feitos para os fios viraram mais uma etapa do ritual de beleza. Eles podem complementar a perfumação, mas não substituem a higienização adequada. Fragrâncias também podem causar irritação ou sensibilidade em algumas pessoas, principalmente quando entram em contato direto com o couro cabeludo. E, com muitos cosméticos na rotina, fica mais difícil descobrir qual deles provocou determinada reação.
Para a fisioterapeuta dermatofuncional e tricologista Michelle Vianna, membro da Academia Brasileira de Tricologia, simplificar pode ser a solução. “Não existe uma fórmula única para todas as pessoas”, afirma. Em alguns casos, o mais importante não é somar tratamentos, mas reduzir as agressões e ajustar a rotina.
7. Cabelos ultralongos: crescer a qualquer custo pode custar caro
Os fios muito longos seguem associados à feminilidade e ao glamour, mas manter o comprimento exige mais do que deixar a tesoura de lado. Quanto mais longo o cabelo, mais tempo as pontas ficam expostas a calor, atrito, sol e procedimentos químicos. Há ainda uma confusão frequente: o cabelo pode estar crescendo normalmente na raiz e, mesmo assim, “não crescer” porque as pontas fragilizadas quebram.
O Dr. Alan Wells, especialista em transplante capilar com mais de 20 anos de experiência e criador da técnica Wells Unshaven Transplant (WUT), lembra que o crescimento depende da saúde dos folículos e do ciclo capilar. Diante de dificuldade importante de crescimento, afinamento ou queda, o diagnóstico correto é fundamental, porque nem sempre o problema está no comprimento.
8. Bônus: menos calor e mais proteção térmica

Se uma só atitude pudesse acompanhar todas as tendências capilares acima, ela seria cuidar do calor. A Academia Americana de Dermatologia (AAD) recomenda limitar o uso do secador e de chapinhas e modeladores, optar por temperaturas baixas ou médias e aplicar um produto protetor térmico antes. A orientação vale para qualquer tipo de cabelo, e as ferramentas de calor estão presentes em boa parte dos visuais da moda, dos alinhados aos cachos definidos.
O dermatologista Deeptej Singh, que integra a AAD, defende que uma boa rotina de cuidados não serve só para deixar o cabelo bonito, mas também para prevenir danos e favorecer o crescimento. A mesma lista da entidade sugere ainda conhecer o próprio tipo de cabelo, o que conversa diretamente com o recado dos especialistas brasileiros desta matéria: o melhor cuidado é o individualizado.
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O que todas as especialistas repetem
- Individualize. Nenhuma rotina viral serve para todos os cabelos.
- Simplifique. Em alguns casos, reduzir agressões vale mais do que acrescentar produtos.
- Observe os sinais. Quebra excessiva, perda de resistência, afinamento ou queda persistente pedem investigação, não só mais um tratamento.
- Tenha paciência. O cabelo cresce em média um centímetro por mês, e nenhum produto muda esse ritmo de forma extraordinária.
Seguir tendências capilares pode ser divertido, desde que o ponto de partida seja o que o seu cabelo suporta e precisa hoje.
Fonte do bônus: Academia Americana de Dermatologia (AAD), comunicado “Tressed to Impress: tips for keeping your mane magnificent”, de 13 de agosto de 2024.
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